O que os paulistas leem no metrô? Veja os livros que acompanham passageiros nos trajetos em SP

  • 28/07/2026
(Foto: Reprodução)
Leitores transformam viagens de metrô em momentos de leitura em SP Quem circula pelo metrô de São Paulo encontra passageiros com livros de diferentes gêneros nas mãos. Entre romances, suspenses, biografias e até obras de desenvolvimento pessoal, os títulos carregados nos vagões revelam a diversidade dos hábitos de leitura na capital. Durante os deslocamentos diários, os passageiros aproveitam os minutos dentro do transporte público para avançar páginas de histórias escolhidas por diferentes motivos: indicação de amigos, influência das redes sociais, curiosidade ou busca por inspiração. A lista de leituras encontradas nos vagões passa por autores populares entre jovens, como Colleen Hoover, até livros de motivação e literatura popular estrangeira. Foi para entender esse hábito que o g1 percorreu estações e perguntou aos passageiros uma questão simples: “O que você está lendo?” (veja o vídeo acima). A artista e professora Mariel Bonzamota, de 35 anos, e o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, de 29. João de Mari/g1 Entre motivação e ficção Sentados lado a lado em um banco da Linha 2-Verde do metrô, em São Paulo, a artista e professora Mariel Bonzamota, de 35 anos, e o assessor de TI Eduardo Yudi Arata, de 29, carregam livros com propostas bem diferentes. Mariel lê “A Neblina”, romance escrito por seu aluno Luís de Oliveira. Eduardo relê “Nada Pode me Ferir”, autobiografia do ex-militar norte-americano David Goggins. O livro ganha um significado especial para Eduardo depois que ele perde uma das pernas, em 2023. Segundo ele, a história de superação do autor ajuda a encontrar motivação para enfrentar novos desafios. "Ler esse livro foi um recurso para me dar um ânimo, sabe? Foi como se algo me dissesse 'bora para cima', porque esse livro é de motivação, treinamentos insanos que ele [David Goggins] fazia. E ele superou tudo isso com problemas de coração, o cara foi 'para cima'", diz Eduardo. Para ele, a leitura também faz parte da preparação antes dos treinos na academia. Com uma bebê pequena em casa e uma rotina de trabalho intensa, Tamires conta que precisou adaptar o hábito da leitura. Nicoly Santos/g1 Romances e suspenses A enfermeira Tamires Moraes, de 38 anos, é uma das passageiras que transforma o trajeto de metrô em um momento reservado aos livros. Ela faz diariamente o caminho entre as estações Saúde, na Zona Sul, e Trianon-Masp, na região central. São cerca de 40 minutos por dia dentro do transporte público. Durante a viagem, ela lê “Ecos da Floresta”, da escritora norte-americana Liz Moore. Com uma bebê pequena em casa e uma rotina de trabalho intensa, Tamires conta que precisa adaptar o hábito de leitura. Antes da maternidade, assina um clube de livros e mantém uma rotina mais frequente. Hoje, tem cinco exemplares esperando na estante. Mesmo com menos tempo disponível, mantém a leitura durante os deslocamentos. O livro que acompanha a enfermeira também chama atenção pela forma como é carregado: ela usa uma capa de proteção feita com tecido para preservar o exemplar. O hábito encontrado nos vagões contrasta com um cenário de queda no número de leitores no país. Dados de 2024 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram que os não leitores passaram a ser maioria: mais da metade dos brasileiros não havia lido nenhum livro sequer naquele ano (veja mais abaixo). Do TikTok para os vagões Parte dos títulos que circulam nos vagões chega aos leitores por meio das redes sociais. O jovem aprendiz Kauã Sousa, de 18 anos, lê “Novembro, 9”, da escritora norte-americana Colleen Hoover. O livro faz parte das obras que ganham popularidade com o chamado BookTok, comunidade de leitores no TikTok. Kauã conta que aproveita principalmente o trajeto de volta para casa, quando os vagões costumam estar menos cheios. “Na ida é muito cheio. Na volta eu consigo sentar, ou encostar em algum canto, e ler melhor”, explica. O fenômeno das redes sociais ajuda autores a alcançar novos públicos e transforma comunidades digitais em espaços de indicação de livros. Ao mesmo tempo, escritoras como Colleen Hoover também recebem críticas de leitores e especialistas, que questionam a forma como algumas obras abordam temas como violência doméstica e abuso. O jovem aprendiz Kauã Sousa, de 18 anos, também encaixa a leitura nos horários do metrô. Nicoly Santos/g1 Redes sociais e novos leitores A escritora e doutoranda em literatura Bruna Paiva conhece bem esse movimento. Ela fica conhecida nas redes sociais ao abordar passageiros no metrô com uma pergunta que virou marca do trabalho dela: “O que você está lendo e para onde você está indo?” A ideia nasce justamente da curiosidade durante os próprios deslocamentos. “Sempre andei muito de transporte público e sempre li muito no metrô. Eu sou fofoqueira. Quando via alguém lendo, ficava tentando descobrir o que era o livro”, conta. Segundo ela, existe uma percepção equivocada de que pessoas que leem no transporte público querem chamar atenção. Na maioria das vezes, diz, elas apenas aproveitam um momento disponível da rotina. Para Bruna, as redes sociais, principalmente depois da pandemia, ajudam a aproximar jovens dos livros e dos eventos literários. “Eu acho o máximo o que isso tem construído entre os jovens. Um desejo por ler literatura, um desejo por conhecer novos autores, um desejo por estar nos eventos literários”, afirma. Ela cita como exemplo o público da Bienal do Livro. “Você vê jovem chorando porque encontrou o autor favorito. Isso é muito legal. Parece um ‘Rock in Rio’ dos livros”, diz. Bruna conta que começa a produzir conteúdo na internet para divulgar os próprios livros, mas encontra um público interessado em recomendações de leitura. Para ela, mesmo quando a escolha envolve best-sellers ou obras populares, o movimento ajuda a aproximar pessoas da literatura. “Eu acho o máximo ver a internet divulgando livros e leitura. Mesmo que a gente compre mais livros do que lê, estimular as pessoas a comprar livros é algo muito positivo.” Uma biblioteca em movimento O jornalista Fernando Piovezam, morador de Itaquera, na Zona Leste, observa esse comportamento há anos. Desde 2016, ele registra passageiros lendo em vagões de metrô e trem pelo projeto “Vi Você Lendo”, criado durante os deslocamentos diários entre a Zona Leste e o Centro. O acervo reúne centenas de imagens de pessoas lendo livros físicos, em leitores digitais e até pelo celular. Nas fotos, aparecem lado a lado títulos de diferentes estilos: Stephen King, Colleen Hoover, livros religiosos, poesia, autoajuda, clássicos da literatura e obras premiadas. A variedade encontrada nos vagões mostra que não existe um único perfil de leitor no transporte público. Um país com menos leitores A diversidade de livros encontrada nos vagões contrasta com os dados nacionais sobre leitura. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, mostra que, pela primeira vez desde o início da série histórica, os não leitores passam a ser maioria no país. Mais da metade dos brasileiros não lê nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Ao mesmo tempo, pesquisas da Câmara Brasileira do Livro apontam crescimento do consumo entre jovens de 18 a 34 anos, impulsionado por redes sociais e comunidades de leitores. Para Bruna Paiva, o tipo de livro escolhido não deve ser visto como uma barreira para a formação de novos leitores. “Tem gente que lê Dostoiévski e tem gente que lê best-seller. Ler também é para ser divertido. Às vezes você lê para descansar a cabeça, às vezes para conhecer uma cultura diferente. Uma coisa não exclui a outra.”

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/07/28/o-que-os-paulistas-leem-no-metro-veja-os-livros-que-acompanham-passageiros-nos-trajetos-em-sp.ghtml


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